É inquestionável a liderança exercida por Leonel Brizola durante o período de redemocratização no Brasil, a partir da década de 1980, através do Partido Democrático Trabalhista. Mas o fiador do vínculo histórico de Minas Gerais com a tradição do trabalhismo gaúcho, reforçando os laços de uma aliança estratégica, foi o grande professor Darcy Ribeiro, uma das cabeças mais iluminadas do século XX.

COM OS ÍNDIOS

Mineiro de Montes Claros, nascido em 26 de outubro de 1922, viveu a infância e adolescência na sua terra natal, até os 17 anos, quando mudou-se para Belo Horizonte com o objetivo de fazer o curso de Medicina. Na capital mineira descobriu seu interesse pelas ciências sociais. Foi para São Paulo e se formou em Sociologia na USP, em 1946.
No ano seguinte foi para o Rio de Janeiro, então capital do país, para trabalhar ao lado do lendário Marechal Rondon. Foi assim que passou a realizar pesquisas de campo para trabalhos etnológicos sobre os índios.
Depois de dez anos convivendo diretamente com algumas tribos indígenas do Mato Grosso, começou a desenvolver estudos teóricos de antropologia e publicou os primeiros livros sobre a questão indígena.
Começou a participar de conferências por toda a América Latina, tratando do tema dos povos nativos. Em 1952 organizou e inaugurou junto com Rondon o Museu do Índio no Rio de Janeiro. Em seguida participou da elaboração do plano de criação do Parque Indígena do Xingu, no Amazonas, ao lado de outras grandes personalidades da cultura brasileira, como Noel Nutels e os irmãos Villas-Boas.
Em Genebra, Suíça, através da Organização Internacional do Trabalho (OIT), colaborou no processo de identificação e levantamento das populações aborígines de todo o mundo. E na UNESCO, em Paris, ajudou na elaboração de um diagnóstico dos problemas das populações indígenas do Brasil.

EDUCAÇÃO E POLÍTICA

A morte trágica de Getúlio Vargas despertou a consciência política em Darcy, especialmente seus ideais nacionalistas. No final da década de 1950, durante o governo JK, conheceu o educador Anísio Teixeira, com quem passou a trabalhar, dedicando-se com grande afinco à causa da educação pública.
Com a construção de Brasília, planejou o sistema educacional de 1º e 2º graus da nova capital. Com o apoio dos presidentes JK e Jânio Quadros, batalhou pela criação da Universidade de Brasília. No dia da renúncia de Jânio, Darcy conseguiu que a Câmara dos Deputados, perplexa naquele momento, aprovasse a lei de criação da UnB.
No governo João Goulart, ocupou o cargo de Ministro da Educação, fazendo uma longa peregrinação pelo país para divulgar o novo plano nacional de educação e a campanha de erradicação do analfabetismo.
Com a confirmação do regime presidencialista no Plebiscito de 1963, Darcy foi nomeado Chefe do Gabinete Civil de João Goulart e iniciou a implantação das chamadas "Reformas de Base", que, em grande medida, provocaram a reação da elite política conservadora do país, que tramou o golpe militar de abril de 1964.

EXÍLIO E PRISÁO

Depois do golpe de 1964, viveu 4 anos exilado em Montevidéu, trabalhando na Universidade do Uruguay, quando concluiu sua famosa obra "Estudos de Antropologia da Civilização", traduzida em muitos idiomas.
Foi no exílio que começou a compreender a ligação entre o Brasil e a América Latina, aprofundando-se ainda mais nestes estudos. Estava surgindo uma geração de brasileiros conscientes da sua condição de latino-americanos.
" - Qual a causa do desenvolvimento desigual dos povos americanos? Por que um país tão rico como o Brasil continua atolado na pobreza?", questionava Darcy, no final dos anos 60.
Em 1968 surgiram noticias sobre uma possibilidade de redemocratização no Brasil. As esperanças pareciam reais com a realização da histórica "Passeata dos Cem Mil", contra a ditadura, no Rio de Janeiro. Mesmo correndo risco de vida, pois era considerado "um elemento de alta periculosidade" pelos militares, Darcy voltou ao país, depois de receber as devidas homenagens da Universidade do Uruguay, pelo trabalho realizado naquele período.
Três meses após seu retorno, foi editado o famigerado Ato Institucional nº 5. O regime militar tornou-se extremamente violento, com prisões, seqüestros, torturas e assassinatos. Foi preso na Fortaleza de Santa Cruz, onde ficou por quatro meses. Foi transferido para o presídio da Ilha das Cobras, onde ficou por mais cinco meses. Suas antigas ligações com o Marechal Rondon o livraram da tortura e da morte.
Os protestos contra sua prisão surgiram dentro e fora do Brasil. Várias universidades do mundo inteiro exigiram sua liberdade, sendo que o famoso historiador inglês Arnold Toybee comentava com ironia que "um país que exila e prende pessoas como Darcy Ribeiro, deve ter uma quantidade imensa de sábios".
Submetido a um tribunal da Marinha, Darcy confessou que seu único crime era amar o Brasil e, embora absolvido das acusações que lhe foram imputadas, foi "convidado" pelas autoridades militares a se retirar do país, para mais um novo período de exílio.

DÉCADA DE 1970

Nos primeiros anos da década de 1970, Darcy trabalhou intensamente, tanto na idealização de novas universidades pelo mundo afora, como na publicação e na tradução dos seus livros para muitos países, o que lhe proporcionou grande reconhecimento internacional.
Recebeu o título de "Doutor Honoris Causa", da Universidade de Paris, ocasião em que proclamou seu irônico discurso autobiográfico, em que analisa sua trajetória de antropólogo, educador e político, afirmando que aquele honroso título da renomada escola francesa era um prêmio de reconhecimento por todos os seus fracassos:
" - Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado pelas causas que me comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade somei mais fracassos do que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado do lado dos que venceram nessas batalhas".
Em 1974, em viagem a Portugal para fazer conferências em Coimbra, Lisboa e Porto, Darcy sente-se mal e descobre que está muito doente. A ditadura brasileira, acreditando que ele estaria em seus dias finais, permitiu seu regresso ao país apenas para que ele pudesse ao menos morrer em paz na sua terra natal.
Após um tratamento cirúrgico bem sucedido, Darcy resistiu bravamente à doença e voltou a dar trabalho aos generais da ditadura, prosseguindo na sua incessante luta política, apesar de todas as adversidades que surgiam no caminho.
O ano de 1976 trazia ainda mais tristezas para Darcy, em razão das mortes de João Goulart e JK. Ele prosseguiu no trabalho de edição de suas obras, tendo publicado, nesta época, o seu romance mais famoso, Maíra.
Fixando-se no Rio de Janeiro para recuperar a saúde, passou a trabalhar na campanha pela abertura democrática no Brasil, além de continuar a desenvolver projetos para diversas universidades do mundo e a participar de conferências na ONU.

A REDEMOCRATIZAÇÃO

Com o processo de Anistia no Brasil em 1979, Darcy pôde voltar a atuar novamente com liberdade, com sua militância franca e destemida. Fundou em 1980, ao lado de Leonel Brizola e de outros quadros do trabalhismo histórico, o Partido Democrático Trabalhista.
Eleito vice-governador do Estado do Rio de Janeiro em 1982, promoveu, entre outras inovações, o projeto de construção de escolas em série, através de um processo de engenharia chamado na época de "fábrica de escolas", para suprir o imenso déficit de vagas no sistema educacional fluminense.
Surgem assim os CIEP's, Centro Integrado de Educação Pública, para dar atenção em tempo integral às crianças do ensino fundamental. Com este projeto, Darcy seguia os passos do seu velho amigo e mestre Anísio Teixeira, um dos precursores da idéia da escola em tempo integral no Brasil.
Em 1986, diante da chantagem eleitoral patrocinada pelo embuste do "Plano Cruzado", Darcy foi derrotado nas eleições para governador do Rio de Janeiro e seus projetos não tiveram continuidade. Apesar da derrota de Brizola na disputa presidencial de 1989 - depois de 30 anos sem haver eleições diretas no Brasil - Darcy não desanimou e continuou a desenvolver seus projetos.
Foi eleito senador pelo Rio de Janeiro em 1990 e ainda exerceu o cargo de Secretário Estadual de Educação, no segundo governo Brizola (1991/94), quando tentou retomar o seu programa de educação integral nas escolas públicas.

NO SENADO

Em 1992 Darcy foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. No Senado Federal, foi o idealizador da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, aprovada em 1996. Embora já estivesse bastante doente, não parava de trabalhar e de desenvolver projetos. Criou a Universidade do Norte Fluminense e concluiu, entre outros livros, sua obra prima, "O povo brasileiro".
Ainda teve tempo de projetar, já nos últimos dias de sua vida, um plano de desenvolvimento autônomo para a Amazônia, que ele denominou de "Projeto Caboclo". Para Darcy, era preciso criar um programa econômico de exploração sustentável para os próprios moradores das florestas.
Ele continuava participando ativamente da política brasileira, criticando a permanente dependência internacional do país, tanto financeira quanto cultural. Darcy estava  plenamente convencido de que o Brasil necessita de um projeto independente de desenvolvimento nacional, que não se submeta aos interesses do capital financeiro internacional.
Pode ser até compreensível que um país pequeno, sem potencialidades assinaláveis, se conforme com a fusão no colosso globalizante, porque sendo isso inevitável, o melhor é relaxar para tirar algum proveito. Mas esse não é, evidentemente, ele afirmava, o caso do Brasil.
Julgava fundamental incorporar todo o povo brasileiro à civilização letrada, "o que jamais se fará com a desastrosa invenção brasileira que é a escola de turnos. O mundo civilizado só conhece escolas de dia completo, para professores e alunos. Só nelas a criança oriunda de família sem escolaridade pode ter condições de progredir".
Também considerava imprescindível fazer uma reforma agrária verdadeira, que assente em terra própria milhões de famílias que nosso sistema econômico não pode empregar nas cidades, famílias cujo futuro está em manter-se no campo ou reverter-se a ele, para ali alcançar prosperidade.
Depois de vencer por tantas vezes a doença que o consumia, da qual ele várias vezes já tinha até zombado, Darcy Ribeiro faleceu no dia 17 de fevereiro de 1997, aos 74 anos, deixando um vazio insuperável, não só no Brasil, mas em toda a humanidade.